5 de janeiro de 2012

The Elder Scrolls V - Skyrim (PC, Xbox360, PS3) (****)

The Elder Scrolls V - Skyrim (PC, Xbox360, PS3) (****)

Em uma era remota onde os games de RPG ainda eram vistos naquela perspectiva isométrica, em terceira pessoa, a então desconhecida Bethesda resolveu inovar com The Elder Scrolls, um RPG em primeira pessoa em um mundo medieval chamado Tamriel.

Final de 2011, a Bethesda chega com a quinta versão de sua série de RPG. Skyrim foi eleito o melhor game do ano passado por várias publicações internacionais e ganhou uma torrente de memes e piadinhas na internet. Mas o jogo é bom mesmo ou é uma flecha no joelho?

Skyrim começa com seu personagem, um ilustre desconhecido sem nome, sendo levado para a execução. Ele atravessou a fronteira do território de Skyrim, mais ou menos parecido com a escandinávia medieval, e caiu em uma emboscada montada pelo Império para capturar rebeldes do grupo Stormcloak, que luta pela independência da região. A caminho do machado do verdugo você pode escolher seu nome, aparência, raça e uma ampla gama de opções cosméticas, incluindo cicatrizes e pinturas faciais.

Na hora que o carrasco ia cortar sua cabeça, um dragão aparece do nada e sai matando todo mundo, te dando oportunidade para fugir. É então que começa sua história e você descobre ser um "Dragonborn", uma pessoa com sangue de dragão, capaz de absorver os poderes destes monstros lendários e usá-los quantas vezes quiser.

Tudo bem, a princípio a história não parece muito original... já vimos esses "escolhidos" aparecerem antes em Baldur's Gate e praticamente todo RPG medieval por aí, mas há muito mais abaixo da superfície de Skyrim. Quem conhece a história dos outros games da série The Elder Scrolls sabe que não há dragões neste mundo... todos eles deveriam estar extintos à séculos... O que então está trazendo estes monstros de volta? Como impedir que eles destruam tudo? Ou, mais importante, isso lá importa quando temos uma área enorme para explorar e muitas histórias paralelas para nos entreter?!

Um grande trunfo de Skyrim é te dar opções o bastante para se divertir. Não está muito interessado em ser "O Escolhido" matador de dragões? Há toda uma intriga política envolvendo o Império, os separatistas Stormcloak, Orcs, o Dominion élfico e poderes regionais, e você é livre para se aliar a uma ou outra facção e se envolver na história da independência de Skyrim. Não gosta de política e quer bancar o Harry Potter? Há uma grande academia arcana em Skyrim, e você pode ir para lá estudar magia e se envolver com outros alunos, professores e intrigas envolvendo um grupo recluso de magos que se pensava estarem extintos a séculos. Gosta de lobisomens e vampiros (ou, na pior das hipóteses, da saga Crepúsculo)? Há também histórias envolvendo estes seres sombrios e seus caçadores...

Toda essa quantidade absurda de histórias paralelas tem seu lado ruim também. É muito comum você ficar sobrecarregado de missões para diferentes facções, personagens e grupos específicos, sem saber por onde começar ou como progredir. Devo resolver o problema dos dragões primeiro ou auxiliar os Stormcloaks? Devo recuperar a espada que um NPC pediu ou ajudar o cachorro falante? Será melhor recuperar os livros roubados da biblioteca dos magos ou aprender a forjar armaduras primeiro? É muito fácil ficar perdido na primeira vez que se joga Skyrim, e provavelmente você vai querer recomeçar o jogo uma ou duas vezes para poder focar melhor em uma coisa de cada vez.

Se a narrativa te dá a oportunidade de perseguir a história que quiser (ou nenhuma delas e sair andando a esmo por aí) em Skyrim, a jogabilidade faz o mesmo. Ao contrário de Oblivion, o game anterior da série, aqui não há classes, signos ou coisas assim para escolher. Qualquer personagem pode fazer o que quiser. Quer sair atirando com arco e reanimando os cadáveres dos mortos? Pode. Quer lutar de espadas? Pode. Quer usar magias e armadura pesada? Vá em frente.

Muita coisa que você faz aumenta habilidades relevantes do seu personagem. Misturar poções aumenta alquimia, apanhar melhora seu conhecimento de armaduras e por aí vai. Cada habilidade aumentada também te ajuda a subir de nível, e a cada nível você pode escolher aumentar sua vida, magia (chamada aqui de "magicka") ou stamina (que deixa vc fazer ataques especiais, correr e carregar mais equipamento), e ainda escolher uma habilidade especial, incluindo coisas como dar zoom com arcos (praticamente um arqueiro sniper), forjar armaduras draconianas, criar poções mais potentes entre dezenas de outras.

Graficamente, Skyrim é bonito de se ver... a uma distância média. Mesmo com os gráficos no máximo, a maior parte das texturas parecem toscas vistas de muito perto, e de longe fica evidente o uso de algumas ferramentas de "copiar e colar" nas texturas, com o mesmo padrão se repetindo por uma grande área. As animações são medianas, e não chegam perto de outros títulos da Bethesda como a série Fallout. Os personagens não tem muito movimento no tronco, se movendo meio de forma "Robocop", com movimentos robóticos e meio fake.

 É fácil se impressionar com o cuidado que a Bethesda teve para criar a ecologia de Skyrim. Animais como alces e coelhos correm pelas matas, sendo caçados por lobos e ursos. É possível presenciar caçadas feitas por matilhas de lobos e até surpreender um dragão no meio de uma refeição, enquanto ele come algum troll ou outro monstro. Curiosamente o mesmo cuidado não aparece nas sociedades de Skyrim... O mundo de Tamriel parece ter mais necromantes do que fazendeiros, e é estranho ver como cidades-estado inteiras se mantêm unicamente sobre a produção de uma ou duas fazendinhas com um ou dois fazendeiros cada... enquanto praticamente toda ruína e caverna (você encontra pelo menos uma dezena delas na viagem de uma cidade para outra) tem pelo menos uns vinte necromantes dentro...

Também é estranho perceber o quanto a Bethesda colocou de atividades no jogo que não são bem exploradas. Por exemplo, alimentos recuperam sua vida, e você pode usar cozinhas nas casas ou fogueiras para preparar pratos mais elaborados (que recuperam mais vida e eventualmente stamina e magicka também), mas não há nenhuma habilidade relacionado à culinária, nem mesmo a alquimia (que também é usada para misturar coisas, entre elas alimentos, que recuperam vida, magicka e stamina). O resultado é que cozinhar é divertido na primeira vez, mas você dificilmente irá repetir o processo denovo, já que não serve para passar de nível, e Alquimia faz poções muito mais eficientes e te ajuda a evoluir no jogo...

A mesma coisa está em moendas (você pode usá-las, mas não servem para absolutamente nada...), decoração das casas (há apenas uma opção de decoração, enquanto Fallout 3 tinha várias...), madereiras (você também pode operá-las... a toa) e vários outros recursos desperdiçados que podiam te dar algum bonus ou gerar algum produto usável...

De maneira semelhante é um tanto inútil andar a cavalo em Skyrim. Embora você possa comprar, roubar ou encontrar cavalos e montar neles, você não consegue lutar sobre o animal, e um simples encontro com um ratão ou lobo pode resultar na morte do animal ou te forçar a perder vários segundos descendo do bicho... Se é assim, qual a razão de colocar cavalos no jogo? Eles são apenas ligeiramente mais rápidos do que um personagem à pé, e mais atrapalham do que ajudam...


Outra bola fora da Bethesda foi em relação aos diálogos. Sabe aqueles aliados interessantes, cheios de personalidade e história para contar, que você encontra em Fallout? Esqueça, não há nenhum por aqui... a maioria dos aliados que você conhece (e que podem te acompanhar) são rasos como um pires e só repetem duas ou três frases o tempo todo.

Isso vale para a maioria dos personagens de Skyrim. Exceto por um ou dois que parecem ter alguma história para contar, a maioria se resume a resmungar alguma coisa e te dar missões (na maioria das vezes, missões para recuperar algo ou matar alguém...).

O cenário enorme é um ponto bem positivo, principalmente por ele ser extremamente bem explorado em questão de relevo e ecologia. Uma viagem por Skyrim irá te levar a vales verdejantes, colinas geladas, encostas íngremes, mares gelados e florestas densas. Praticamente não há como seguir uma linha reta de um local para outro, pois desfiladeiros e abismos rochosos vão te obrigar a caminhar muito mais até chegar ao seu destino. Há uma enorme variedade de locais para explorar, incluindo pedras rúnicas que te dão habilidades especiais, cavernas, ruínas, fortalezas e vilarejos.

A IA também é problemática. Embora seja bem divertido encontrar NPCs cuidando de suas vidas (magos rivais lutando, soldados imperiais enfrentando Stormcloaks, bandidos assaltando caravanas...) aleatoriamente no cenário, também é comum ver eles caindo em suas próprias armadilhas, e nenhum demonstra ser muito inteligente em combate. Seus aliados são os mais afetados, principalmente por terem tendências masoquistas (é comum vê-los pisar na mesma armadilha dezenas de vezes seguidas... até morrer!) e por terem mania de te empurrar. Sim, quase toda vez que você está parado os seus aliados vem andando e te dão um empurrão, apenas engraçado quando se está dentro de uma taverna, mas trágico quando está em cima de uma montanha ou na beira de um abismo...

Também é estranho o fato de seus aliados não conseguirem saltar, uma pedra, tronco de árvore ou barranco que seja. Enquanto você anda pelo mapa, é comum seus aliados se perderem ou ficarem presos contornando obstáculos minúsculos (que seus inimigos conseguem cruzar sem maiores problemas...).

É comum também encontrar bugs variados (e absurdos) pelo jogo, como mamutes voadores, personagens aparecendo do nada (ou caindo de grandes alturas) e árvores flutuantes, mas considerando o tamanho do cenário, dá para perdoar o pessoal da Bethesda por não ter encontrado esses bugs antes...

Pelo menos algo em Skyrim é perfeito, o som. A trilha sonora é digna de nota, tanto o tema principal (que costuma tocar toda vez que você encontra ou é encontrado por um dragão) até as músicas instrumentais e as divertidas baladas tocadas pelos  bardos em tavernas. Os sons dos monstros são muito bem trabalhados, assim como a dublagem, e os efeitos sonoros de magias e explosões superam o que se vê nos games atualmente.

Em resumo, Skyrim é um bom game, embora seja inferior em algumas coisas a seu predecessor, Oblivion. A pressão para lançar no dia 11/11/11 provavelmente evitou que fossem feitos mais beta tests, que poderiam consertar a maior parte dos bugs e problemas gráficos e de IA, mas o jogo ainda precisa comer muito feijão antes de chegar no mesmo nível que outros games da mesma produtora, como Fallout New Vegas e  Fallout 3...